sexta-feira, 27 de julho de 2018

FAKE NEWS E AS ELEIÇÕES DE 2018


JÔ DRUMOND 
As fake news podem influenciar as eleições de 2018? Infelizmente, sim. Tanto é que diversos veículos brasileiros de mídia se uniram para monitorar essa questão. As mentiras travestidas de verdades, assim como as desinformações veiculadas frequentemente nas redes sociais, com o objetivo de ocultar as verdades, confundem as pessoas; a manipulação de informações cria falsas convicções e pode mover o fiel da balança no período eleitoral.

A internet é recente, mas as fake news existem desde a Grécia antiga, porém sem esse rótulo anglicista da era digital. Com o advento das redes sociais, a rapidez da disseminação de notícias falsas nas mãos de pessoas inescrupulosas é realmente preocupante no jogo do “vale tudo” eleitoral.

No dia 22 de julho foi publicada uma reportagem especial no jornal A Gazeta (ES), intitulada “Boatos mudaram curso da história brasileira”, na qual se afirma que criar notícia falsa com interesse político não é novidade em nosso país; citam-se poderosos boatos que alteraram a história do Brasil. Neste período pré-eleitoral, é mister conscientizar o eleitor do acontecido e alertá-lo para o que poderá acontecer. Por isso tomo a liberdade de registrar, sucintamente, alguns efeitos nefastos da boataria nos rumos da política brasileira, registrados pela reportagem citada: 

Em 1889 a proclamação da República se deveu à revolta dos militares e, por conseguinte, à deposição do Imperador, por causa da divulgação da notícia, jamais confirmada, de que ele mandara prender militares republicanos.

Em 1921, foram publicadas cartas ofensivas dirigida aos militares e a Nilo Peçanha. Tais cartas eram falsamente atribuídas a Arthur Bernardes, para prejudicar sua candidatura à Presidência.

Em 1937 houve um golpe de Getúlio Vargas, com o intuito de permanecer no poder. Foi veiculada pelo rádio a descoberta, por parte do governo, de um plano comunista (plano Cohen), que tornaria reféns tanto os ministros de Estado quanto a Corte Suprema. As eleições foram suspensas e  Getúlio iniciou o Estado Novo.

Em 1945, a falsa notícia de que o candidato Eduardo Gomes teria dito que  dispensava os votos dos marmiteiros, ou seja, do pessoal de baixa renda, o que ocasionou a vitória a Gaspar Dutra.

Em 1964, a justificativa do golpe militar foi a ameaça comunista. O então presidente João Goulart foi rotulado de comunista a serviço de países considerados inimigos, o que também não era verdade.

Como se vê, o perigo das fake news não é falso. Ele paira sobre as próximas eleições. Por isso foi criado um curso online gratuito, sob a chancela da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), para alertar o público em geral. Tal curso encontra-se à disposição dos interessados no site www.firstdraftnews.org/learn.O facebook acaba de  desativar 196 páginas e 87 contas com o intuito de reprimir perfis enganosos, que tinham aparentemente o propósito de difundir desinformações, antes das eleições de outubro.  

O desejo do poder muitas vezes envereda por meios tortuosos: artimanhas, traições, assassinatos, batalhas e guerras. A expressão popular “os fins justificam os meios”, atribuída a Maquiavel (1469-1527), também é fake.  Maquiavel não era nenhum santo, mas a leitura apressada e descontextualizada de suas teorias leva muita gente a lhe atribuir erroneamente a falta de ética de suas verdades. Seu objetivo, no livro O Príncipe (1513), era analisar o governo do príncipe Lourenço de Médici e lhe oferecer uma forma de manter-se permanentemente no poder, sem ser odiado pelo público. 

Na era do iluminismo, Rousseau (1712-1778) lançou a teoria do “bon Sauvage”: “L’homme naît bon; c’est la société qui le corrompt.” (O homem nasce bom; é a sociedade que o corrompe.) O homem, na ótica de Maquiavel, seria justamente o contrário: ele nasce egoísta e mau; é a sociedade que o molda. Qual dos dois estaria certo? Nenhum dos dois? Talvez ambos? A sociedade tanto pode moldar o homem para o bem, quanto para o mal. O certo é que, como já foi dito, nos dias de hoje, o perigo do fake não é falso. 

Jô Drumond
26/07/17