Quando criança, eu sempre me perguntava por qual insensatez os meses de setembro, outubro, novembro e dezembro não correspondiam ao sétimo, oitavo, nono e décimo meses do ano. Meus familiares e meus professores do ensino primário não sabiam me responder. Bem mais tarde soube que meus questionamentos infantis tinham fundamento. O calendário romano, estabelecido por Rômulo (753 a.C.) tinha apenas dez meses. Dezembro era realmente o décimo mês do ano.
Por que razão houve a mudança? Em 46 a.C., Júlio César acrescentou dois meses e deslocou Januarius e Februarius para o início do ano, empurrando dezembro para a décima segunda colocação.
Soube também que no calendário juliano havia um erro referente ao alinhamento dos equinócios. Em 1582, o Sumo Pontífice Gregório XIII corrigiu tal erro em seu calendário, adotado na maioria dos países católicos.
Desde então a França adotou o calendário gregoriano. No entanto, durante a Revolução Francesa houve total reviravolta em quase tudo. Além do rompimento com o passado monárquico, feudal e cristão, além da mudança de costumes, os revolucionários quiseram abolir as referências religiosas na marcação do tempo. Dessa forma, os nomes de santos foram substituídos por nomes de plantas ou frutas (pera, figo, nabo...), de ferramentas de trabalho (enxadão, arado, pá...), ou de animais (vaca, coelho, gato...).
O ano I deixou de ser o ano do nascimento de Cristo e passou a ser o ano I da instauração da República, (1793); desapareceram os feriados cristãos, assim como os domingos (dia da adoração de Deus). Esse inusitado calendário foi baseado em conhecimentos astronômicos.
O ano continuava dividido quatro estações de três meses cada uma. O nome de cada mês se referia ao cultivo ou ao clima da época, a saber:
Le Printemps = Primavera
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Germinal
Florial
Prairial
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mês
da germinação
mês
da floração
mês
das pradarias
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L’Été = Verão
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Messidor
Thermidor
Fructidor
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mês
da colheita
mês
do calor
mês
das frutas
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L’ Automne = Outono
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Vendémiaire
Brumaire
Frimaire
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mês
das vindimas
mês
das brumas
mês
do frio
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L’Hiver = Inverno
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Nivôse
Pluviôse
Ventôse
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mês
da neve
mês
das chuvas
mês
dos ventos
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Vejamos, por exemplo, a primeira delas, correspondente ao mês da vindima ou colheita da uva (vendémiaire), de 21 de setembro a 22 de outubro.
Primedi
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1
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Uva
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Duodi
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2
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Acafrão
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Tridi
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3
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Castanha
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Quartidi
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4
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Colchique
(flor)
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Quintidi
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5
|
Cavalo
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Sextidi
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6
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Bálsamo
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Septidi
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7
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Cenoura
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Octidi
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8
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Amaranto
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Nonidi
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9
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Pastinagas
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Décadi
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10
|
Cuba
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A título de curiosidade, vejamos a divisão, mês a mês, do primeiro semestre do ano de 1794, contendo as respectivas temáticas:
Período
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Nome do mês
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“Décades”
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Consagrada à (ao)
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1º
mês
22
set./21 out.
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“Vendémiarie”
Referência
à vindima (colheita da uva)
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1ª
2ª
3ª
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Ser
supremo e à Natureza
Gênero
Humano
Povo
Francês
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2º
mês
22
de out/20 nov.
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“Brumaire”
Referência
à bruma típica da época
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1ª
2ª
3ª
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Benfeitores
da Humanidade
Mártires
da Liberdade
Liberdade
e Igualdade
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3º
mês
21
de nov./20 dez.
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“Frimaire”
Referência
ao frio – clima da época
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1ª
2ª
3ª
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República
Liberdade
do Mundo
Amor
à Pátria
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4º
mês
21
dez./ 19 jan.
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“Nivôse”
Referência
à neve
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1ª
2ª
3ª
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Ódio
aos Tiranos
Verdade
Justiça
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5º
mês
20
jan./18 fev.
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“Pluviôse”
Referência
à época das chuvas
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1ª
2ª
3ª
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Pudor
Glória
e Imortalidade
Amizade
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6º
mês
19
fev./20 mar.
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“Ventôse”
Referência
à época dos ventos
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1ª
2ª
3ª
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Frugalidade
Coragem
Boa
fé
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O calendário revolucionário ou republicano, criado por Fabre d’Eglantine em 05 de outubro de 1793, teve como marco inicial (retroativamente) o dia do estabelecimento da República, 22 de setembro de 1792. Tal calendário vigorou na França por pouco mais de uma década.
Napoleão Bonaparte foi figura de destaque Primeira República Francesa. Em 1799 liderou um Golpe de Estado e se instalou como primeiro cônsul num regime chamado “Consulado”. Cinco anos depois, ele se tornou imperador, sob o nome de Napoleão I e imperou de 1804 a 1814.
Deve-se a ele a curta duração do calendário republicano e a retomada do gregoriano, em 1806.
Jô
Drumond
Outubro/2018