quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O CAFUNÉ

*Jô Drumond


Quem não gosta de um cafuné? Nada mais relaxante que sentir a fricção, no couro cabeludo, ou o deslizamento de hábeis dedos sobre as madeixas, sobretudo com a cabeça pousada sobre o colo de uma pessoa amada. Melhor ainda se isso acontecer na malemolência da sesta. O cafuné pode ser um simples gesto de carinho, mas tem também a acepção de “catação de piolhos”. Esse hábito, raro hoje em dia, era muito comum em tempos de antanho, sobretudo no período da colonização brasileira.

Tal desfrute se fazia necessário, não pela sensação carinhosa, mas devido à avassaladora infestação de piolhos, numa época em que ainda não havia medicamentos para combatê-los. A catação de piolhos era comum em todo o mundo, de maneira mais ou menos discreta, entre quatro paredes, mas aqui, no Brasil, esse hábito era mantido a portas e janelas escancaradas, no passeio ou até mesmo em praça pública.

Tal hábito era visto mais comumente nas classes inferiores. Na aristocracia urbana era praticado longe dos olhares inoportunos, mas acontecia com ambos os sexos, em todas as idades e em todas as classes sociais. Via-se que até mesmo homens de prestígio negociavam com forasteiros enquanto se deixavam “cafunezar”. Nas festas ou solenidades da aristocracia rural, não era incomum a cena descrita por Expilly: “senhoras recostarem-se nos espaldares das cadeiras, entregando a cabeça a uma jovem escrava enquanto a conversa prossegue o seu curso”. Vejamos um texto de Charles Expilly, sobre mulheres e costumes no Brasil colônia:

À hora do grande calor, as senhoras,recolhidas ao interior dos aposentos deitam-se no colo da mucama favorita, entregando-lhe a cabeça. A mucama passa e repassa seus dedos indolentes na espessa cabeleira que se desenrola diante dela. Mexe em todos os sentidos naquela luxuriante meada de seda. Caça delicadamente a raiz dos cabelos, beliscando a pele com habilidade e fazendo ouvir, de tempos a tempos, um estalido seco, entre a unha do polegar e a do dedo médio. Esta sensação torna-se uma fonte de prazer para o sensualismo das crioulas. Um voluptuoso arrepio percorre os seus membros ao contato dos dedos acariciadores [...] algumas sucumbem à deliciosa sensação e desfalecem de prazer sobre os joelhos da mucama [...] Mesmo os homens não desdenham, durante as horas de lazer, a carícia de uns dedos ágeis, afagando as suas cabeleiras. Um delicioso arrepio corre-lhe o corpo, cada vez que sentem o ruído significativo das unhas da mucama. (EXPILLY,s/d, pg.366-9)

 Em1805, Thomas Lindley afirmava, em seu livro Viagem ao Brasil, que o que era considerado vulgar na Espanha e em Portugal era aqui praticado naturalmente. Segundo ele, era quase impossível entrar em uma residência sem deparar com uma dessas cenas.

A catação de piolhos, a princípio, tinha caráter de higiene e profilaxia, como entre os animais, no combate às pulgas e a outros parasitas. No entanto sociólogos e psicanalistas relacionam esse hábito à sensualidade. Tal costume coletivo poderia ser, segundo eles, uma maneira lícita de dar vazão à libido publicamente, sem despertar a maldade alheia. A procura do piolho corresponderia, portanto, à procura do prazer. Roger Bastide, em sua obra A psicanálise do cafuné (1941), analisa e pesquisa o prazer oculto do cafuné. Segundo ele, entre jovens, seria uma masturbação simbólica.

A condição feminina do período colonial é muito bem retratada por Gilberto Freyre, em sua obra Casa grande e Senzala. As mulheres do Brasil colônia, desde jovens, se submetiam à tirania paterna e, posteriormente, à tirania do marido. A educação religiosa e a tradição moral representavam uma barreira intransponível a seus desejos libidinosos, recalcados durante toda a vida. Meninas de 12 ou 13anos tornavam-se esposas procriadoras, de senhores de 40 a 70 anos, sem direito ao prazer sexual. Tal prazer era reservado aos homens, que se deitavam e se deleitavam com todas as escravas que lhes apetecessem, mesmo contra a vontade delas.


 Por essa diferenciação exagerada (dos sexos), se justifica o chamado padrão duplo de moralidade, dando ao homem todas as liberdades do gozo físico do amor e limitando o da mulher a ir para a cama com o marido, toda santa noite que ele estiver disposto a procriar (FREYRE, 1934, p.117-8)

A submissão das mulheres, a fidelidade delas exigida e a severa punição das adúlteras, em contraste com a poligamia descarada dos maridos, bolinando as serviçais a olhos vistos, mesmo dentro do lar, propiciaram às esposas uma vida reclusa entre mulheres, destinadas a bordar, a tagarelar e a fazer doces e bolos apetitosos.Tal convívio acabou gerando naturalmente, certas afinidades, certas intimidades e, por conseguinte, certas liberdades entre elas. A tentação lésbica, cada vez mais recalcada pela moral e pelos bons costumes, acabou sendo substituída pela catação de piolhos, aprovada e aceita pela sociedade. Bastide afirma que “o cafuné foi, portanto, um substitutivo dos divertimentos lésbicos. E por isso mesmo ele teve uma função útil, pois representou uma salvaguarda da moral.”

Segundo ele, tal costume desapareceu com o fim da família patriarcal e com o advento da família conjugal, ou seja, quando a relação de subordinação entre os esposos passou a ser de colaboração. O casamento por amor passou a suplantar o casamento por conveniência.

Assim, o cafuné, como instituição social, desapareceu, mesmo antes do aparecimento dos remédios específicos contra a infestação de piolhos. Todavia, por incrível que pareça, em pleno século XXI, os piolhos continuam a passear sobre as cabecinhas infantis, em creches e escolas maternais, das mais humildes às mais sofisticadas. Os pais são avisados por meio de discretos bilhetes nos quais se usa toda sorte de eufemismos para disfarçar a indesejada infestação, vista hoje em dia como algo vergonhoso para a instituição. O hábito da “catação” desapareceu, mas o piolho ainda insiste em dar o ar da sua graça.

*Jô Drumond (Josina Nunes Drumond)
Membro de 3 Academias de Letras (AFEMIL, AEL, AFESL)e do Instituto Histórico (IHGES)

Referências
BASTIDE,Roger. Psicanálise do cafuné e estudos de sociologia estética brasileira. São Paulo: Editora Guaíra Ltda, 1941.
EXPILLY,Charles. Mulheres e costumes no Brasil (trad. de G. Penalva), São Paulo: Cia Ed. Nacional, 1863.
LINDLEY,Thomas.Voyage au Brésil (trad. Doulès) Paris,1805.


FREYRE,Gilberto. Casa Grande e Senzala, 2.ed. Rio de Janeiro: Schmidt, 1934.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Trabalho à Distância

*Jô Drumond

 Há cerca de uma década, tive acesso ao resultado de uma enquete feita na cidade de São Paulo, cujo objetivo era detectar os maiores sonhos de consumo dos habitantes daquela megalópole. Por incrível que pareça, os maiores desejos dos paulistanos correspondiam ao que se tem e ao que se vive em pequenas cidades: morar numa casa com jardim e quintal, almoçar juntamente com a família, morar perto do trabalho... Esse resultado deixa patente que o progresso pode representar um retrocesso na qualidade de vida dos cidadãos. Sabe-se que os problemas enfrentados com resignação (ou não) pela maioria dos habitantes das metrópoles são os mesmos: a correria do dia a dia, o ritmo frenético da cidade grande, o trânsito infernal, engarrafamentos, poluição, exiguidade dos apartamentos, espigões, falta de relacionamento amistoso com a vizinhança... Na rua, cada um representa apenas um dado estatístico. Um desconhecido entre desconhecidos, após oito horas diárias de trabalho, acrescidas de uma a quatro horas no trânsito, volta cansado e sem disposição para dar atenção à família. O salário, na maioria das vezes, não compensa o transtorno, nem o esforço.

Nos dias de hoje, felizmente, bons ares tecnológicos sopram sobre profissões que podem ser exercidas à distância. Graças à popularização da internet, pode-se trabalhar longe dos escritórios, mediante smartphones e tabletsdevidamente conectados. O que se chama atualmente de “trabalho remoto” resolve grande parte das questões profissionais, evita deslocamentos, desafoga o trânsito, permite mais horas de sono e mais tempo para dar atenção a todos, até mesmo ao cachorrinho de estimação. Além de tomar as refeições com os familiares, alguns profissionais conseguem um tempinho para se arriscar como “gourmets”, na preparação de pratos especiais, para o deleite de toda a família. A vida familiar ganha novos sabores, novas cores e mais amores.

Com o advento do emprego flexível, devem-se revisar as relações trabalhistas.  Abole-se a tradição de “bater o ponto”. O trabalho pode ser feito na rua, numa praça, num parque, em casa, enfim, em qualquer lugar, desde que haja conexão. A cada dia, um maior número de profissionais adere ao trabalho remoto. Reuniões são feitas à distância, peloskype, contatos profissionais são feitos pelas redes sociais, sobretudo pelo whatsApp.

Para quem quer abrir seu próprio negócio, há o home based, uma espécie de franquia que permite gerenciar tudo sem sair de casa. Os investimentos são mais baixos; evitam-se, por exemplo, a compra e a manutenção de um ponto comercial.

Nesse período de transição ainda há insegurança e dificuldade de adaptação, mas com o tempo tudo se ajeita. A comunicação via satélite é um caminho sem volta. No século XXI, os trabalhadores terão que se adaptar à Revolução Tecnológica, assim como os do século XVIII tiveram que se adaptar à Revolução Industrial. Como dizem os franceses, “tout est bien qui finit bien”.

*Jô Drumond (Josina Nunes Drumond)

Membro de 3 Academias de Letras (AFEMIL, AEL, AFESL)e do Instituto Histórico (IHGES)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

REVOADA DE LETRAS

Jô Drumond

No décimo oitavo aniversário do Clube do Livro de Vitória, neste mês de outubro de 2015, todos os participantes foram brindados com uma bela obra de arte de rara leveza, de autoria de Ana Paula Castro. Trata-se de uma obra altamente polissêmica. A riqueza simbólica do livro aberto, do voo e do colibri permite uma enorme gama de interpretações.
Parte-se de base sólida, em madeira, contendo o nome do leitor, passa-se pela consistência sintática e morfológica do livro e chega-se à volitante inconstância das letras, guiadas por um beija-flor. Letras se descolam do livro, se deslocam em torvelinho e alçam voo "colibritante".
Sabe-se que o voo é um elo entre o plano terrestre e o celeste. Simboliza também liberdade, movimento e audácia. As letras, por sua vez, representam o movimento. O colibri, tido como mensageiro de tempo, simboliza o infinito. 
Destarte, a obra contendo letras em movimento, aliadas ao voo de um beija-flor, pode representar a infinita liberdade proporcionada pelo conhecimento, por meio da leitura.
No percurso livro/leitor/leitura, parte-se da concretude do livro, passa-se pela imponderável magia do significante e chega-se à inefabilidade do significado. Ao abrir uma página, abre-se a comporta dos sonhos. A revoada de letras corresponderia ao efeito da leitura.
Assim como o voo de um pássaro, o livro entremeia terra e céu, forma e conteúdo, concreto e abstrato (pés no chão e cabeça nas nuvens).
Na obra de Ana Paula Castro, tipos moldados, normalmente presos à sintaxe, se misturam, se desmantelam e se dispersam no ar, ensejando a fruição de veleidades resguardadas no recôndito do ser.
Parabéns ao Clube do Livro, por ensejar novos horizontes a cada indicação de leitura. Obrigada, presidente Simone, pela memorável tarde comemorativa da maioridade de nosso Clube (18 anos).


Jô Drumond (Josina Nunes Drumond)
Membro de 3 Academias de Letras (AFEMIL, AEL, AFESL)e do Instituto Histórico (IHGES