quarta-feira, 6 de março de 2019

A FÉ E A DÚVIDA


Na esperança de que o jovem Thomé não se desgarrasse da fé religiosa, sua família o levou a um local de peregrinações, para que recobrasse o fervor, em vias de esmaecimento.

Em respeito às pessoas envolvidas, topônimos serão omitidos neste relato. Fizeram uma longa viagem, em direção a uma pequena comunidade, na zona rural. Desde que chegaram ao destino, ouviram, o tempo todo, histórias de milagres acontecidos naquele local. Por exemplo, um senhor queria gravar a mensagem de Nossa senhora, mas se esqueceu de colocar a fita K-7 dentro do gravador. Desapontado, ele demonstrou sua desolação, após o culto, junto à pretensa “arauta da santidade”. Esta lhe respondeu: -  Pode ficar tranquilo. Minha fala está todinha gravada em sua fita, mesmo estando fora do gravador. 

Muitos outros casos misteriosos foram contados ao longo do dia por diversas pessoas. Era uma espécie de preparação psicológica ou de concentração, à espera do grande momento da aparição de Nossa Senhora, que era vista apenas por uma pessoa: uma menininha de cerca de oito anos, que, como qualquer outra, brincava de correr atrás de uma bola, juntamente com crianças de sua idade. Em um horário determinado não se sabe por quem (como se a rainha dos céus se submetesse aos ditames do relógio), todos se reuniram para recebê-la. Começaram com orações e, logo a seguir, passaram a entoar cânticos de louvores. Em um dado momento, a menina interrompeu a cantoria dizendo: -  Ela está chegando... eu já a estou vendo... está se aproximando, coberta por um manto azul, cabelos longos, envolvida por uma luz...

Subitamente, a pirralha se pôs a falar com um vocabulário de adulto. Pode-se dizer que seu registro linguístico se assemelhava aos sermões aos quais os fiéis estão habituados, na igreja. Usava a segunda pessoa do plural “vós”, mas não sabia conjugar o verbo adequadamente. Poderia ser uma fala decorada, ou não. Era bastante longa. De qualquer forma, não era linguagem apropriada para uma criança. Ao terminar a prédica, pegou a bola e saiu brincando novamente, como se nada houvesse acontecido.

Um dos familiares de Thomé, todo contrito, ainda envolvido por uma espécie de êxtase quase epifânico, pela proximidade da entidade celestial, perguntou-lhe:

- E aí, meu jovem, o que você achou?

- Achei apenas que Nossa Senhora está precisando de estudar a conjugação verbal.

Foi como se ele jogasse uma balde de água gelada no fervor religioso. Desolada, a família constatou a inutilidade do esforço, mas não desistiu. Para que ele não se desviasse da linha reta que levava ao reino do Senhor, foi enviado, malgrado sua vontade, a um seminário. A formação religiosa, a vida eclesiástica e o recolhimento monacal se encarregariam de colocá-lo nos devidos trilhos. Por lá permaneceu longos anos, não por vocação, evidentemente, mas com o intuito de ter acesso gratuito a um bom ensino formal. Sua família não teria condições de bancar seus estudos. Passou por todas as etapas, chegou a fazer teologia, mas se esquivou da ordenação. Preferiu tornar-se professor de latim, língua que dominava com maestria.

Décadas após, Thomé soube que tal menina, depois de adulta, continuava tendo as mesmas visões, no mesmo local, em horário pré-determinado e continuava também suas pregações como porta-voz da mãe de Deus. Fiéis de todo o Brasil e até mesmo do exterior afluíam ao local, no afã de ouvir tais mensagens. Com o tempo, tornou-se um relevante ponto de peregrinação.

Há alguns anos ele teve contato com outro tipo de mensagens enviadas por Nossa Senhora, em local bem distante das pretensas aparições. Tratava-se de um fenômeno assaz bizarro, conhecido como “as formigas bordadeiras”. As folhas de determinada árvore eram picotadas por formigas, em formato de letras, contendo mensagens supostamente enviadas por Nossa Senhora, em latim. Recebeu das mãos de uma frequentadora desse local, um volume contendo mensagens digitadas e impressas, para que as traduzisse. Ao ler parte do texto, ficou desapontado pela pobreza do conteúdo. Não passaria aquilo adiante. Contatou a cliente e disse-lhe que não faria a tradução por motivos de foro íntimo.

Insatisfeita, ela insistiu em saber o motivo da recusa. Ele lhe disse apenas que não acreditava na autoria dos textos. Nossa Senhora certamente deveria ter algo mais importante a fazer do que enviar mensagens por meio de formigas. Além do mais, se as mensagens fossem de sua autoria não seriam tão mal redigidas, nem tão machistas.

Lamentava ter desapontado tanto seus familiares quanto a fervorosa cliente. Eles acreditavam piamente em algo que, para ele, era incoerente. Não poderia compactuar com aquela insanidade.
Em sua concepção, a fé não se impõe. Ela pode brotar espontaneamente em circunstâncias propícias assim como pode desaparecer, em circunstâncias adversas. Impossível forjá-la em mentes racionalistas. Caso o indivíduo não tenha propensão ao misticismo, mesmo sendo criado dentro dos preceitos religiosos, um dia, sua razão sobrepujará os dogmas, os milagres e todas as crendices inculcadas em sua mente.

Foi o que aconteceu consigo. Ao chegar à idade do siso, percebeu que muita coisa não se encaixava em sua mente inquiridora. Começou espontaneamente a questionar justamente o que era inquestionável: os dogmas. Talvez fosse influência do positivismo de Auguste Comte, para quem o conhecimento científico sistemático era baseado em observações empíricas. Talvez fosse resquício da Dúvida Metódica cartesiana, linha de pensamento que duvidava de tudo. O fato é que, em sua visão juvenil de mundo, tudo devia ser amplamente debatido. Por que os dogmas religiosos teriam caráter indiscutível? Como poderia ter total credibilidade em algo, sem nenhuma evidência comprobatória? A dúvida não seria inerente ao ser humano, “indivíduo dividido” nesse mundo descabido? Poderia ele ter fé e dúvida ao mesmo tempo? A primeira implica uma atitude contrária à segunda ou elas se complementam? Sabe-se que a dúvida motiva o estudioso a pesquisar para resolvê-la, de modo que ela impulsiona o acesso ao conhecimento. Nesse caso ela não seria benéfica ao fortalecimento da fé?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

CONCORRÊNCIA


“Castigat ridendo mores” (Correção dos costumes pelo riso)
Jean de Santeuil

(Baltazar Guimarães Silva e a escritora Jô Drumond)

Como explicar o sucesso estrondoso de uma sátira escrita há mais de meio século contra uma determinada pessoa pública que não se mantinha nos trilhos?
Um dos diversos teóricos do riso, Vladimir Propp afirma que a essência da sátira é a derrisão dos defeitos dos homens. Afirma também, em seu livro Comicidade e riso (1992), que é possível rir do ser humano em quase todas as suas manifestações, tanto na vida física quanto na vida moral e intelectual.

A sátira seria uma espécie de arma utilizada, às vezes, para coibir excessos e desvios sociais e/ou individuais. A crítica, seja irônica, sutil, ferina ou mordaz, provoca o riso de zombaria, que é um dos tipos de riso mais frequentes na sociedade.

Baltazar Guimarães (1926), meu conterrâneo e parente (temos ascendentes comuns), residente em Patos de Minas (MG), fez uma espécie de cordel satírico, com 16 versos (4 estrofes) em redondilha maior (heptassílabos), com rimas alternadas, tipo de verso muito apreciado na poesia popular.
Para melhor entendimento de sua sátira, é mister fazer uma prévia contextualização.

Em meados do século passado, em Patos de Minas, havia um prefeito que andava enamorado por uma bela cidadã. Como era casado, contratou-a como chefe de gabinete. Destarte estaria sempre a seu lado, sem levantar suspeitas. Acontece que sua preferida era casada e afeita à poligamia. Namorava também um serralheiro, que gostaria de tê-la por perto.

Certa feita, a prefeitura abriu concorrência pública para a construção de mata-burros nas estradas rurais, com aproveitamento de velhos trilhos de ferrovia. Como se tratava de um serviço próprio de serralheiro, o namorado número 2 vislumbrou a possibilidade de ganhar a concorrência para frequentar mais assiduamente o gabinete onde ela trabalhava. Com esse intuito, montou uma firma de engenharia, contratou engenheiro e fez uma proposta com custos bem abaixo do mercado, na certeza de ser contemplado.  Ciente do estratagema de seu rival, o prefeito agiu nos mesmos moldes. Arranjou outra firma para cobrir a proposta em iguais condições e com os mesmos valores. Em caso de empate, cabia a ele decidir por uma das duas. Evidentemente, escolheu a que lhe convinha.

O serralheiro, despeitado pela proximidade cotidiana do rival com o objeto de seus desejos e indignado com sua atitude desonesta, por ter violado a proposta e feito outra igual, começou a maldizê-lo em rodas de bar. Incomodado com essas maledicências, o prefeito resolveu partir para a agressão. Casualmente, entrou em uma lanchonete onde se encontrava seu desafeto. O malfadado encontro acabou em tapas, socos e safanões.

No dia seguinte, o carro do prefeito apareceu com marca de tiro em uma porta lateral. Seu rival foi acusado de tentativa de homicídio. No entanto, o exame de balística comprovou que a bala era proveniente da arma do próprio prefeito.

Baltazar Guimarães expôs a situação de maneira jocosa, com cadência cordelística:
           
 Baltazar datilografou os versos em quatro vias, com papel carbono. Na época ainda não existia fotocópia.  Duas dessas cópias caíram no chão, durante um campeonato de futebol da UEP (União dos Estudantes Patenses). Quem as encontrou, possivelmente algum desafeto do prefeito, resolveu fazer a divulgação. Levou-as ao escritório de Valdemar Mendes. Durante uma semana, os versos foram datilografados centenas de vezes, de 4 em 4 vias, para atender à demanda, que se avolumava como bola de neve. Formava-se fila de espera de cópias, à porta do escritório.

Os versos anônimos acabaram caindo nas mãos da imprensa da capital, acrescidos de uma nota explicativa. Posteriormente foram publicados por um jornal carioca. A rápida divulgação causou espanto ao autor, que fazia questão de se manter no anonimato, por temer represálias do alvo da sátira, pessoa nem sempre pacífica.

Na época, Patos de Minas ainda era uma pequena cidade, local propício para fofocas e maledicências. Alguém acabou dando com a língua nos dentes, e Baltazar viu-se perseguido pela administração pública. No entanto um providencial imprevisto o livrou do castigo: o capotamento de um carro da prefeitura, na estrada de Unaí, provocou a morte dos encarregados de castigá-lo pela indevida “molecagem”.

Quem foi castigado, de fato, foi o prefeito, que se viu à mercê da maledicência pública.
Na época da colonização, Padre Antônio Vieira já dizia que Gregório de Matos, com seus epigramas maliciosos, corrigia e educava mais rapidamente a sociedade brasileira do que ele com seus sermões
.


(Baltazar e seu filho Caio, com Jô Drumond)
Nota:

Em recente bate-papo com o autor, ele frisou a ambiguidade do título (“Concorrência” pública e amorosa)  e ressaltou alguns detalhes que não devem passar despercebidos:

* “TAÍ.DÃO, tiro na rua: o responsável pelo tiro, chamado Ataídes, tinha a alcunha de TAÍDÃO.
*“por alguém que se dis...PUTA”: do verbo disputar (a concorrência) e ao mesmo tempo menção à vida poligâmica do pivô do conflito.

*“um crime quase PERFEITO”: (perfeito/prefeito) “quase”, porque o exame de balística  pôs fim à farsa de tentativa de homicídio.

*“o homem já vai à lua”: isso aconteceu na época da primeira viagem do homem à lua.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

OS NEFELIBATAS



Desde pequenina, eu sempre ouvia: “fulano vive nas nuvens”. Não entendia o sentido metafórico da expressão. Eu me perguntava por que viver nas nuvens se é bem mais prático viver em casa, com calefação no inverno, condicionador de ar no verão, comidinha gostosa... Além do mais, dormir na nuvem deve ser bem mais desconfortável que em caminha macia. Decididamente, os adultos têm cada ideia!

Com o passar do tempo, comecei a entender as falas enviesadas dos mais velhos. Entendi que ninguém vive nas alturas. Trata-se apenas de uma espécie de qualificativo para pessoas distraídas, sonhadoras, meditativas, idealistas, enfim, para aqueles que procuram se esquivar da realidade circundante, ou, como se diz popularmente, para aqueles que não têm os pés no chão.

Em Literatura, o termo nefelibata, de origem grega (grego "nephele" e "batha" = aquele que anda nas nuvens), é usado para tachar os que desobedecem às regras literárias, sobretudo os poetas que, geralmente, têm tendência inata ao nefelibatismo. No entanto, há poetas que deixam eventualmente a cabeça voejar, sem nunca tirar os pés do chão. São engajados socialmente e não aderem à concepção da Arte pela Arte. Não privilegiam a Estética em detrimento de outras funções tendenciosas do fazer artístico (morais, pedagógicas, religiosas, políticas, entre outras).

Mas isso não vem ao caso. O que importa é que descobri casualmente, na França, uma cidadezinha
medieval literalmente nefelibata, onde todos os moradores vivem não apenas com a cabeça nas nuvens, mas com o corpo todo, inclusive seus bens móveis e imóveis. Foi uma descoberta inesperada e deveras impactante.

Ao aceitar o convite de uma amiga parisiense para uma estada em Toulouse, aceitei prontamente. Minha intenção, na verdade, era conhecer uma cidadezinha próxima dali, chamada Albi (80 Km de Toulouse), terra natal do artista plástico Toulouse Lautrec (1864-1901). Após ter vivenciado o dia a dia dos idosos em um asilo (descrito na minha crônica “O luxo e o laxo”), seguimos de carro para Albi. Durante o percurso, Monique sugeriu uma visita a um vilarejo construído sobre as nuvens. Eu quis logo saber que disparate era aquele. Tratava-se de uma fortaleza medieval construída no cocuruto de um monte. Devido à altitude, as construções se mostram quase sempre entre ou sobre as nuvens (veja fotos). Convite irrecusável. Desviamo-nos um pouco do roteiro previsto, e nos dirigimos à insólita cidadezinha. A cidadela foi construída no século XIII, no topo de uma montanha, como foi dito, devido às falésias que se prestavam à defesa natural. Para maior fortificação, foram construídas duas muralhas de proteção.

Não há circulação de veículos no local. Haja fôlego para subir, haja olhos para apreciar tanta beleza e
haja câmeras para registrar as labirínticas ruelas, assim como os charmosos casarios de pedra escalando as ladeiras. Qualquer ângulo se presta a um “clique”. A beleza é tamanha que o cansaço físico passa despercebido pelos subintes. No alto do penhasco, uma vista inigualável, além de bares, restaurantes, artesanatos, museus, adegas e, evidentemente, uma igreja. Para guardião da fortaleza, o padroeiro escolhido foi o santo guerreiro Saint Michel (São Miguel), considerado defensor e protetor do povo.

Na culinária, uma das mais nobres e apreciadas iguarias locais, é o inigualável “paté de foie gras”, um dos melhores do mundo, e muito apreciado em todo o “hexágono” francês.
O inesperado dessa viagem superou todas as expectativas referentes às outras localidades visitadas. Diz a canção de Caetano Veloso, ... “talvez quem sabe, o inesperado faça uma surpresa...” Data vênia, aproveitando a licenciosidade poética do compositor, reitero seu pleonasmo afirmando que o inesperado me fez uma grande surpresa. Uma surpresa tão inesperada quanto subir ladeira acima e descer ladeira abaixo, no inusitado Cordes-sur-ciel, considerado o mais belo vilarejo daquele país.